Home

Enquanto bem acomodado em minha poltrona num trem da EuroStar deixo a bela estação St. Pancras em Londres rumo a estação Gare du Nord, no centro de Paris. Neste exato momento recebo um SMS em meu smartphone: “Project codename – Auferstehung. You have been chosen.” Parece que alguém cometeu algum engano. Não faço a menor idéia deste projeto e acho que conheço umas três ou no máximo cinco palavras em alemão sendo Auferstehung uma palavra que não consta de minha limitada lista.

Volto minha atenção para as belas paisagens ao redor enquanto o trem ganha velocidade. Não importa quantas vezes tenha feito essa viagem é sempre um presente aos olhos e a imaginação poder aprecia-las. Noto surpreso, que sou o único a fazer isso no vagão em que estou, pois está vazio. Algo surpreendente para uma segunda-feira pela manhã, mas vou aproveitar esse raro momento.

Começo a ouvir minha playlist preferida que montei via XBOX Music e a primeira música a tocar: Forever Young – Alphaville. Inesperadamente a música parou e uma mensagem entrou no lugar, dizendo: “You have been chosen for a revolutionary Project –codename Auferstehung. As soon as this train pass under the sea you’ll have around 30 minutes to talk with a notorious personage of the History. It’s just the beginning.”

Deve ser algum marketing viral e fui um dos ‘premiados’. Esse vagão vazio em plena segunda-feira e agora esses torpedos, acho que daqui a pouco vai entrar um monte de gente fantasiada neste vagão me oferecendo um novo produto e possivelmente de origem alemã. Será que chegaram a mim porque houve uma época que ouvia Kraftwerk? Vou continuar ouvindo minha playlist e tentar dormir um pouco, quem sabe, se um bando de malucos entrar neste vagão e virem que estou dormindo, acabem indo embora.

– Meu jovem, acorde!

– Será que estou sonhando? Acho que ouvi alguém dizer: Acorde…

– Desculpe incomoda-lo, mas pode me ajudar?

– Acho que não estou sonhando… ouço a mesma voz novamente. Deixe-me abrir os olhos talvez seja o serviço de bordo. Estou sentindo um aroma delicioso de café.

A minha frente está sentado um homem aparentando uns 30 e poucos anos com um cabelo e roupa da moda, sim moda do século XVIII. Que engraçado! Eu tinha certeza que era algum tipo de brincadeira ou marketing viral. Vamos ver o que ele vai me oferecer. Muito criativo esse pessoal!

– Desculpe o incomodo meu jovem, mas pode me responder a algumas perguntas?

– Claro que sim, mas não precisa me chamar de ‘meu jovem’. Eu devo ser mais velho que você. Muito prazer, meu nome é Alexandre e o seu?

– A honra é minha. Meu nome é François Marie Arouet, meu jovem Alexandre. Impossível que você tenha mais que os meus 84 anos, mas aprecio seu humor.

– François Marie Arouet. Acho que já ouvi este nome antes.

– Possivelmente. Mora em Paris há quanto tempo? Sou mais conhecido por Voltaire e pode me chamar assim a partir de agora; prefiro.

– Voltaire?! O escritor, ensaísta e filósofo iluminista?

– Parece que está familiarizado com meus trabalhos, porém pode me responder a algumas perguntas de imediato?

Estava demorando. Agora começarão as perguntas sobre meu perfil, o que gosto de ouvir, comprar e em seguida irá me apresentar algum novo produto. Mas se é um produto de origem alemã por que colocaram um cara fantasiado de Voltaire?

– Sim meu caro Voltaire. Como posso ajuda-lo?

– Alexandre, onde estamos? Essa carruagem é muito diferente de todas que já vi. E sua roupa também é algo diferente de tudo que usamos na França. É alguma nova moda inglesa?

– Carruagem? Este é um vagão de um trem super veloz e neste exato momento estamos passando por baixo do mar entre a Inglaterra e França. Minha roupa? Moda inglesa? Não, costumo ir trabalhar assim. Não exigem mais gravata, o que já é um alívio.

Entendi. Está fazendo de conta que não sabe onde está e em seguida chamou a atenção para minha roupa. Acho que é alguma nova campanha para Business Dressing. Ah, isso tem mais a ver com um personagem francês! Vou dar um pouco mais de corda para esse sujeito.

– Um ‘train’ passando por debaixo do mar? Interessante. Este meu pesadelo está incrívelmente surreal. Lembro-me de ter adormecido com muita febre e agora acordo dentro deste pesadelo, mas sinto-me como se tivesse meus 30 e poucos anos. Que estranho! Alexandre, em que ano estamos, para que eu possa ter uma ideia de onde minha mente alucinada pode ir.

– Estamos em 2012.

– 2012 Anno Domini?

– Esta expressão não é muito usada, mas é isso mesmo. 2012 depois de Cristo.

– Incrível! Este sonho é o mais espantoso que já tive. Preciso usar isso depois em algum de meus escritos; um novo conto. Consigo até sentir o aroma de café! Posso na verdade até saborea-lo. Que delicioso! Nunca tomei um café assim em Paris.

Essa brincadeira está interessante. Vamos ver onde ela vai parar. Vou fazer algumas perguntas que só mesmo o próprio Voltaire saberia responder ou então alguém que tenha decorado tudo sobre sua vida e obra.

– Caro Voltaire, posso tornar este sonho mais interessante? Também tenho algumas perguntas afinal não é todo dia que tenho a oportunidade de conversar com alguém tão ilustre.

– Oui Alexandre.

– Onde e quando nasceu?

– 21 de Novembro de 1694. Paris, França.

Uau! Parece que decorou bem. Nem titubeou ao responder.

– Quais são algumas de suas obras?

– A lista é grande. Posso mencionar algumas: Édipo, Mariamne, La Henriade, História de Charles XII, Brutus, Zaire, Le temple du goût, Cartas Filósoficas, Adélaïde du Guesclin, Mondain, Epître sur Newton, L’Enfant prodigue, Le Caffé, Tratado sobre a tolerância e muitas outras.

– Alguma preferência?

– Prefiro as trágicas. A propósito, a humanidade atingiu a paz e iluminação em 2012?

– Lamento dizer que não.

– Mas as guerras desapareceram, não é? Lutamos muito para esclarecer a sociedade e embora revoluções fossem necessárias sempre ficou claro para mim e para Spinoza, Locke, Bayle e Newton que o poder da razão reformaria a sociedade e o conhecimento prévio. Também acabaria com o abuso da religião.

– Meu caro François, sinto dizer que em pleno século XXI as guerras não acabaram. Na verdade num período curto no século XX tivemos duas Grandes Guerras Mundiais com a perda estimada de 100 milhões de vidas e a religião foi a grande fomentadora.

– Que pesadelo! Isso não é possível. Por favor, Alexandre, minha amada França ainda existe em 2012?

– Ah sim! Existe e mais bela do que nunca! Terá a oportunidade de ve-la quando chegarmos a Gare du Nord. Hmmm…acho que estou começando a acreditar nesta brincadeira.

– Alexandre, a guerra é o maior dos crimes, mas não existe agressor que não disfarce seu crime com pretexto de justiça.

– Um pensamento interessante, concordo. (Tenho a impressão que já ouvi esta frase). E a ‘justiça’ hoje em dia serve de pretexto para se conseguir petróleo, derrubar as Torres Gêmeas nos Estados Unidos….Ahhh vamos mudar um pouco de assunto isso está ficando deprimente.

– Estados Unidos? Está bem, mas depois me diga o que isso significa. Embora este pesadelo estranho seja meu, vou deixa-lo conduzi-lo por um pouco. Sobre o que gostaria de conversar?

Típico de um francês! Foi só eu mencionar Estados Unidos e ele já fez de conta que nunca ouviu falar. Ignoram totalmente os norte-americanos. Pelo menos chego a conclusão que trata-se de um francês nato, mas como fala Português fluentemente!

Vou fazer uma pergunta que acredito o pegará de surpresa porque envolve os sentimentos e não dá pra ele ter decorado alguma coisa neste sentido e vai ficar sem saber o que dizer; aí peço para ele encerrar esta brincadeira, pois confesso, ele chega a ser muito convincente.

– François existe um tema o qual intriga a muitos e eu sou um destes que não encontrou uma resposta totalmente satisfatória: Como você define paixão?

– Paixão é uma infinidade de ilusões que serve de analgésico para a alma. As paixões são como ventanias que enfurnam as velas dos navios, fazendo-os navegar; outras vezes podem fazê-los naufragar, mas se não fossem elas, não haveriam viagens nem aventuras nem novas descobertas. . Mas e você Alexandre, como definiria paixão?

– Sinceramente? Sua resposta me derrubou. Ainda estou meditando a respeito. Posso responder um pouco mais pra frente? Não me julgue mal, por favor.

– Não se preocupe meu jovem amigo! Eu acredito que devemos julgar um homem mais pelas suas perguntas que pelas respostas.

– Neste caso Voltaire, o que te inspirou, ou melhor, o que te inspira?

– Não tenho uma resposta simples a tal pergunta. Acredito que tenho um instinto para amar a verdade; mas é apenas um instinto. Obtive inspiração também após meditar nas muitas leituras que fiz e faço das infindáveis obras literárias disponíveis. A leitura engrandece a alma. Percebi que quanto mais lemos, tanto mais nos instruímos, e quanto mais meditamos, tanto mais estamos em condições de afirmar que nada sabemos. A verdadeira inspiração não floresce num coração egoísta, não acredito que o egoísmo faça alguém verdadeiramente feliz, aprendi que o maior prazer que alguém pode sentir é o de causar prazer aos seus amigos. Está buscando inspiração?

Silêncio.

– Alexandre?

– Ah desculpe! Por um momento minha mente viajou em sua resposta. O que foi mesmo que me perguntou?

– Perguntei se está buscando inspiração. Está?

– Até pouco tempo atrás eu tinha certeza sobre várias coisas, mas alguns acontecimentos abalaram meu alicerce, sei que me compreende. Posso neste momento dizer que sim, estou buscando inspiração e esta nossa conversa de algum modo parece ser uma resposta a esta busca.

– “Alicerce abalado”, compreendo. Embora não sei quais foram estes acontecimentos, acredite: converse com aqueles que são de sua confiança, os verdadeiros amigos, eles falarão a verdade e mesmo que doa poderá ser uma cura. Busque também ouvir o que outros sábios já disseram afinal uma coletânea de pensamentos é uma farmácia moral onde se encontram remédios para todos os males.

– “O que outros sábios já disseram” – alguma recomendação específica?

– São muitas, a lista seria enorme. Sabe Latim, Grego, Hebraico ou Inglês?

– Inglês. Por quê?

– Neste caso sugiro que comece com Provérbios e depois os Salmos. Os achei muito práticos. O desafio é ser fluente nos idiomas que mencionei.

– Voltaire, se entendi bem, os Provérbios e Salmos das Escrituras Sagradas? É isso? Deduzi no início de nossa conversa que não acreditasse em Deus quando falou sobre o abuso da religião.

– Não misture as coisas. Combati e continuarei combatendo os abusos da religião. Todo abuso precisa ser reformado. Já fui exilado por isso. Meus pensamentos a este respeito são bem claros a todos meus amigos e inimigos: a religião é a genitora do fanatismo e da discórdia civil, a inimiga da humanidade.

– Mas acredita que existe um Criador? É uma pergunta que ainda em pleno século XXI muitos se fazem.

– Meu jovem! Nada sei, mas o universo me confunde! Não posso imaginar que tal ‘relógio’ possa existir sem Relojoeiro.

– Interessante. (Acho que também já ouvi esta frase antes.)

– Ainda estamos passando sob o mar?

– Sim, mas daqui a pouco termina e voltaremos a observar a paisagem nesta bela manhã de segunda-feira.

– Estranho. Estou começando a sentir um pouco de sono, mas como é possível se já estou num sonho ou pesadelo, começar a sentir sono? Insólito demais! Deixe-me tomar mais um pouco deste delicioso café!

Se a mensagem que recebi estiver correta esta brincadeira tão bem elaborada está para acabar. Qual é objetivo dela? Há momentos que acredito estar falando mesmo com Voltaire! Este sujeito é um ator de primeira e extremamente inteligente.

– Alexandre, você disse que estamos em 2012. Que este ‘train’ super veloz está sob o oceano. Imagino que com tal progresso a humanidade também tenha conseguido obter tempo para as coisas mais importantes na vida e assim seja mais feliz. Longe daquilo que presencio em minha época onde a maioria está sob as garras do obscurantismo.

– Hmmm…gostaria de dizer que a humanidade é mais feliz do que em sua época. O mal comum do século passado e deste é chamado de ‘Depressão’. E até mesmo jovens em seu pleno potencial chegam ao cúmulo de tirarem a própria vida. O que você diria para ajudar alguém assim?

– O homem que, numa crise de melancolia, se mata hoje, teria desejado viver se tivesse esperado uma semana. Isso é o que diria, na verdade, é o que digo!

– Parece que as coisas se tornaram muito superficiais. São poucos que conseguem conversar sobre aquilo que está lá bem no fundo no coração. Será que existe um caminho para o coração?

– Ouvir. Ouvir atentamente. O caminho do coração é o ouvido.

– E se depois de escutar atentamente; ouvir de coração. Deve-se falar a verdade?

– Não é a verdade que nos perde; é a maneira de dizê-la. Pense nisso Alexandre, pense nisso.

– Muitos acabam deixando de ser verdadeiros por que se preocupam demais com aquilo que outros pensarão ou o julgamento que farão. Como acha que os outros te veem? E isso lhe afeta de algum modo?

– No inicio de nossa conversa quando me apresentei como François lembra-se qual foi sua reação e o que me perguntou?

– Sim, lembro: “Voltaire, o escritor, ensaísta e filósofo iluminista?”

– Cometi e cometo muitos erros, meu jovem. Todavia fico extremamente feliz que mesmo neste sonho insólito sou conhecido em pleno século XXI por coisas positivas, pois não vi nas qualificações que usou para me descrever nada que tenha me deixado arrependido e triste. Parece que deixei algum legado. Todos nós desejamos ser benquistos por outros. É algo natural. Assim somos afetados de um modo ou de outro por aquilo que possam ver ou achar a nosso respeito, mas isso jamais pode ser sua bussola. Por exemplo: O esplendor da relva só pode mesmo ser percebido pelo poeta. Os outros pisam nela. Um mérito inegável da poesia: ela diz mais e em menor número de palavras que a prosa. Espero que tenha compreendido.

– Creio que em parte, precisarei meditar um pouco mais sobre isso. Agora mudando o assunto de ‘pato pra ganso’ como costumamos dizer, aprecia um bom vinho? Gostaria de convida-lo para uma refeição um dia desses lá em Paris.

– Sim, aprecio. Na verdade, não conheço nada mais sério do que a cultura da vinha.

– Excelente! Aproveito para perguntar seu verdadeiro nome, acho que a brincadeira já está acabando.

– Meu verdadeiro nome? Meu jovem amigo acho que você é quem deve estar brincando neste meu sonho que parece tão real! A propósito, o sono está voltando ainda mais forte…

– Antes que eu adormeça dentro de meu próprio sonho você ainda me deve uma resposta.

– Acho que devo. É sobre como eu definiria paixão, não é? Pensei que você havia esquecido. Muito já foi falado e as tentativas para explica-la variam. Por enquanto vou ficar com sua definição poética quando a compara com ventanias e a força que exercem sobre um navio.

– Nunca se esqueça de que é difícil libertar os tolos das amarras que eles veneram.

– Como assim? Voltaire?

Parece que adormeceu mesmo ou então faz parte de toda esta encenação. Repentinamente também estou com um sono tremendo. O café já está frio vou pedir outro ao serviço de bordo. Pronto já acionei o botão de serviço. Já estamos quase voltando à superfície.

– Sr. Alexandre? Com licença, Sr. Alexandre? Solicitou o serviço de bordo?

– Ah sim, desculpe. Adormeci enquanto aguardava. Por favor, dois cafés. Um para mim e outro para meu amigo aqui em frente.

– Seu amigo? Qual amigo? Parece que realmente havia alguém aqui, pois tem outra xícara vazia, mas provavelmente deve ter se mudado para outro vagão ou simplesmente foi ao toilet.

– É verdade, deve ser. Talvez você o tenha visto. Ele estava fantasiado de Voltaire, sabe aquele filósofo francês do século XVIII?

– Não vi ninguém por aqui ou em outros vagões que se encaixe nesta descrição! Tem certeza que não foi um sonho?

– É, pode ser. Talvez minha imaginação fértil esteja me pregando uma peça em plena segunda-feira, muito obrigado.
Percebo que já atravessamos o túnel sob o mar. Já estamos novamente na superfície. Parece que há uma nova mensagem em meu celular.

“Alexandre. It wasn’t a dream. It wasn’t a joke. You really talked to Voltaire. It was real. Flesh and blood. Currently, we just can keep that working for around 30 minutes. In the future that will work for an undetermined period of time. You didn’t understand, we know that however you will. We appreciate your good work and collaboration. Next time you’ll be contacted as today. Project –codename Auferstehung.”

– Próxima vez? Isso foi real? No way! Super elaborado, mas impossível!

– Sr. Alexandre, sua xícara de café. Desejo que desfrute o restante da viagem.

– Senhorita, muito obrigado, mas acho que minha viagem está apenas começando.

5 thoughts on “Café Insólito: Voltaire (Episódio 1)

  1. Pingback: Café Insólito: Voltaire « August Alexander

  2. Pingback: Café Insólito: Elvis Presley | August Alexander

  3. Pingback: Café Insólito: Cecília Meireles | August Alexander

  4. Pingback: Café Insólito: Shakespeare | August Alexander

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s