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A música que me veio a mente numa manhã de muito calor ao caminhar pela primeira vez na Bourbon Street em New Orleans foi essa:

“Crawfish.,
Well I went to the bayou just last night,
There was no moon but the stars were bright”

A cena de abertura do filme King Creole que no Brasil traduziram como “Balada Sangrenta” mostra uma vendedora de peixes em uma carroça rodando bem lentamente ao passo que ela canta a música “Crawfish” que em seguida é acompanhada por Elvis do alto da janela de uma daquelas casas típicas da Bourbon. Uma cena inesquecível especialmente pela sonoridade da música cantada por Elvis em início de carreira e também pela cantora que não faço a menor ideia do nome, mas que cantava muito!

Elvis in New OrleansIsso foi em 2002, entre idas e vindas pra esta bela cidade aqui estou novamente em 2013 para um evento sobre Segurança da Informação. Aproveitando um dia de folga vou pegar o Bonde verde (Streetcar) da St. Charles porque é uma das melhores maneiras de explorar o Garden District e também dá uma sensação de voltar no tempo num ritmo descontraído a bordo de um vintage car de janelas abertas, por falar nisso já vem chegando um!

Incrível! Apenas 3 dólares para um passe que vale o dia inteiro e ainda com o bonde praticamente vazio! Ei, espere um pouco. Bonde praticamente vazio, eu acho que já vi esta história antes.

– Bom dia. Pode me informar que cidade é esta? O clima e parte da paisagem me lembram de New Orleans, mas há tanta coisa diferente!

Numa situação normal eu diria que esse sujeito, um sósia quase perfeito de Elvis Presley no auge de seus trinta e poucos anos, fugiu de um hospício ou sofre de amnésia, mas levando em conta algumas experiências recentes vou responder como se fosse a coisa mais normal do mundo.

– Muito bom dia! Sim, nós estamos em New Orleans, Luisiana. Numa ensolarada e quente manhã de segunda-feira. A propósito, muito prazer! Meu nome é Alexandre e o seu?

– Obrigado pela informação. Meu nome? Elvis Aaron Presley, muito prazer. Posso me sentar aqui?

Para um cara que já conversou com Voltaire e Carl Jung será uma viagem e tanto conversar com Elvis! Depois terei bastante tempo para analisar o que tudo isso significa afinal as peças deste quebra-cabeça ainda estão muito desconectadas.

– Claro que sim Elvis. Aproveite e tome uma xícara de café. Alguém deixou uma garrafa térmica e duas xícaras no banco ao lado.

– Como sabe que é café e não alguma outra bebida?

– Elvis, vai por mim. É café. Beba uma xícara bem cheia porque esta nossa conversa vai deixar você um pouco confuso.

– Na verdade já estou confuso. Ontem a noite depois de voltar do dentista, jogar tênis e tocar um pouco de piano estava com dificuldades para dormir e com um mal-estar, mas agora me sinto como se tivesse voltado aos meus trinta anos embora com a memória e sentimentos de minha idade atual, 42! Isso é um sonho, certo?

– Meu caro Elvis, eu acho melhor aproveitarmos a viagem e conversarmos um pouco porque não tenho uma resposta exata a sua pergunta.

– Aproveitar a viagem… devo estar mesmo numa ‘viagem’ daquelas. Alexandre em que ano estamos?

– Sei que irá achar isso muito estranho, mas estamos em 2013.

– 2013! Não é possível! Só pode ser um sonho. Na verdade um pesadelo. Ginger? Onde ela está?

– Ginger? Quem é ela?

– Ginger Alden, minha namorada. Estava comigo ontem à noite.

– Hey Elvis não faço a menor ideia, mas que tal irmos batendo um papo. Quem sabe ela não vai pegar este bonde também um pouco mais pra frente, não é?

– OK Alex. Se estivermos em 2013 então eu devo ter 78 anos de idade, mas sinto-me como se tivesse meus trinta. A propósito: ainda sou conhecido e faço sucesso em 2013?

– Elvis, acredite. Você é ainda mais famoso do que em 1977. Continua sendo um dos artistas que mais vende anos após ano. Seus filmes são reprisados vez após vez. E recentemente a tecnologia de última geração está produzindo seus shows como se você estivesse ao vivo.

– Como se eu estivesse ao vivo? Não entendi.

– Ah, desculpe. Expressei-me de modo errado. É como se você pudesse fazer shows em diferentes lugares do planeta ao mesmo tempo usando holografia e tecnologia 3D, mas isso é um pouco complicado pra explicar. Vamos falar de outra coisa, por exemplo, sobre a Ginger Alden, sua namorada. Você gosta muito dela?

– Sim e embora ela seja muito jovem temos planos para nos casarmos em breve. É uma pena que não tenho aqui comigo uma foto para lhe mostrar. Aí você entenderia!

– Nem precisa! Posso procurar agora uma foto ou até mesmo algum vídeo dela através deste aparelho. Aqui em 2013 chamamos de Smartphone. Você pode fazer e receber ligações telefônicas de qualquer lugar do planeta. Também pode usa-lo para buscar informações, fotos, vídeos e outras coisas. Veja só. Basta eu digitar: Ginger Alden. E em poucos segundos teremos várias opções.

– Isso é maravilhoso! Deve custar uma fortuna? O preço de um Rolls-Royce talvez?

– Ah, não tão caro assim! Hoje em dia é possível comprar um modelo top por uns 500 dólares. Veja Elvis. Encontrei um vídeo onde ela está concedendo uma entrevista. É ela?

– Sim, é ela! Minha Ginger.

– Man, she’s pretty gorgeous! Com todo respeito Elvis!

– Eu sei, sem problemas Alex. Estou ciente de quão bela e atraente ela é.

– E como se sente ao vê-la neste vídeo?

– Quando não se está apaixonado, não se está vivo. Sinto-me mais vivo do que nunca.

– A resposta de um rei!

– Não Alexandre. Eu não sou Rei. Eu sou apenas um cantor.

– Elvis Presley apenas um cantor. Vamos fazer de conta que sim! Já parou para pensar de onde veio tanta força para cantar e dançar do modo que o levou a ser conhecido como Rei do Rock?

– Agora compreendo algo sobre mim mesmo. Tenho a força do céu e do inferno em mim. Preciso aprender a equilibrá-las porque são perigosas. Tenho que saber me controlar.

– Acha que a morte de seu irmão gêmeo ao nascer, Jessie Garon, o afetou também neste sentido?

– Não sei ao certo. Dizem que ao nascerem gêmeos, se um deles morre, o outro recebe sua força. Mas acho que isso é mera lenda. Lendas de cidadezinhas pequenas como aquela onde nasci, Tupelo no Mississipi.

– Falando em perda de pessoas queridas, a morte de sua mãe, Gladys, foi determinante no rumo que sua vida e carreira tomaram?

– Considero o momento mais dramático de minha vida. Acredito que nunca mais fui o mesmo depois de sua morte. Acho que muitos não sabem, mas tinjo meus cabelos loiros de preto em homenagem a ela. Quando canto ‘Mama Liked the Roses’ me emociono muito e também a canção My happiness era um presente para ela. Toda mãe deveria pelo menos uma vez na vida ouvir e sentir de seu filho ou filha a emoção e o amor que estas letras transmitem.

– Posso entender Elvis. Uma boa mãe é algo realmente especial. Mães como a sua e a minha são de uma geração bem diferente da atual. Merecem todo amor e carinho.

– Você também já compôs ou cantou alguma canção para sua mãe?

– Quem eu? Ah, quem me dera. Não tenho o seu dom. Mal comecei a aprender tocar violão. E você Elvis, como foi aprender as notas musicais? Os acordes? Estou sofrendo pra aprender.

– Não sei uma nota de música. Nem preciso.

– É, não precisa mesmo! Você talvez seja um dos únicos que não precisa. Acha que seu talento é natural? Um dom? Como explica isso?

– Sempre soube que deveria existir um propósito em minha vida. Senti sempre alguém me guiando. Quero dizer, deve haver uma razão. Por que fui escolhido, entre milhares de pessoas, para ser Elvis Presley? Tem de haver uma razão.

– Elvis, todos buscam por respostas para o sentido da vida. Encontrou alguma?

– Continuo sendo somente um sujeito que procura respostas. E você, Alex, encontrou?

– Talvez, mas tenho reavaliado o assunto dum prisma diferente.

– Prisma diferente? Por exemplo?

– Já viu um bebezinho brincando na areia de uma praia? Para ele tudo é novo. Não se dá conta de quão grande é o lugar onde está. E caso conseguisse perceber isso ainda assim não saberia que existem outras milhares de praias em todo o planeta. É naquele momento único que ele está concentrado se divertindo e descobrindo. E não adianta nada tentar explicar isso para um bebezinho. Talvez ele até ouça um pouco, mas está além de sua compreensão. Penso que a humanidade é como aquele bebezinho na beira de uma única praia.

– Um ponto de vista interessante. O universo é um segredo para mim. Lembro-me das noites em minha cidade natal em que ficava observando as estrelas no fundo negro e pensando, pensando, pensando. Sempre foi para mim uma inspiração.

– Falando em universo, um cantor muito famoso nos dias de hoje, Bono Vox de um grupo irlandês chamado U2, disse o seguinte a seu respeito: “Elvis Presley é o Big Bang do rock and roll,o começo de tudo.”

– Um irlandês? Deve estar tirando uma onda porque sou norte-americano. Os jovens gostam do estilo de música desse grupo, U2?

– Sim, muitos jovens e outros não tão jovens também. A propósito Elvis, você influenciou gerações de jovens. Se pudesse transmitir uma mensagem aos jovens de hoje, o que diria?

– Tudo de que os jovens precisam é esperança e o sentimento de que pertencem a algo. Se eu pudesse fazer ou dizer alguma coisa que desse a eles este sentimento, eu acredito que teria contribuído em algo para o mundo.

– Elvis acredite você contribuiu. Vivemos numa época de muitas incertezas, futilidades e poucas verdades. Parece que há um sentimento de desencanto.

– Poucas verdades, eu acredito que a verdade é como o Sol. Pode se esconder durante algum tempo, mas não desaparece. Se realmente existe um sentimento geral de desencanto não significa que indivíduos não possam ser felizes.

– Felicidade. Qual é sua receita, Elvis, para uma vida feliz?

– Minha receita de uma vida feliz: Algo para fazer, alguém para amar e esperança no futuro.

– Parece uma receita muito boa. Percebi em nossa conversa que você é bem direto e na maioria das vezes usou poucas palavras.

– Os olhos das pessoas dizem mais do que suas palavras.

– Elvis nisso concordo 100% com você. Tenho a impressão que nossa conversa vai chegar ao fim, pelo menos por enquanto. O que acha de fazemos o seguinte: eu faço uma pergunta ou digo algo e você responde com a primeira coisa que lhe venha mente, mas de preferência que seja o título ou o trecho de uma canção sua. Pode ser também o nome de um filme que tenha estrelado, mas como não é uma regra responda com aquilo em que realmente acredita. Pode ser?

– Pode ser. Gostei da ideia.

– Vamos começar!

– Dinheiro?

– O dinheiro existe para ser espalhado e quanto mais felicidade ajudar a criar, mais valor tem.

– Julgar outros?

– Julgar um homem por seu ponto mais fraco ou dívida é como julgar o poder do oceano por apenas uma onda.

– Hey Elvis profundo esse seu pensamento! Vamos continuar. Alguma frase polêmica?

– Eu não diria que garotas são um hobby meu. São um passatempo.

– O que as mulheres realmente querem?

Love me tender and a little less conversation, a little more action please.

– Uma grande surpresa?

– Priscilla.

– O começo do fim?

Suspicious Minds.

– Qual o seu melhor filme?

Viva Las Vegas.

– Sua melhor canção?

– Aquela que ainda não cantei.

– Uma grande tristeza?

– A perda de minha querida mãe, Gladys.

– Uma grande alegria?

– Lisa Marie.

– Uma saudade?

Always On My Mind.

– Futuro da humanidade?

If I Can Dream.

– Elvis Presley definido por ele mesmo?

– A imagem é uma coisa o ser humano é outra. É difícil manter uma imagem. Nunca esperei ser alguém importante. Talvez não o seja, mas o que quer que eu seja, o que quer que eu faça, será o que Deus escolheu pra mim. Sinto que Ele observa cada passo meu.

– Hey Elvis vamos precisar interromper nosso bate-papo. O bonde parou acho que é uma parada obrigatória. Vamos aproveitar pra tomar algo refrescante! Esse calor aqui de New Orleans é de derreter o asfalto!

– Vamos lá! Tenho muitas perguntas para fazer! Não vamos perder tempo.

Dessa vez algumas coisas diferentes estão acontecendo. Percebi que o motorista do bonde cumprimentou a mim e ao Elvis quando descemos. Não começamos a ficar com sono como ocorreu com Voltaire e Jung. E acabamos de entrar num bar para tomar algo refrescante que não seja café!

– Elvis o que deseja beber?

– Um copo grande de chá bem gelado com limão! Preciso ir ao banheiro antes. Já volto. Estou ansioso para continuarmos nossa conversa, pois agora sou eu quem tem muitas perguntas!

– OK, vou pedir as bebidas.

Opa, uma mensagem no meu celular: “Project codename – Auferstehung. At this time you talked to Elvis Presley without a previous information from us. It’s part of the project. As you can realize more people interacted with him. It’s not a dream. Be patient. You’ll understand.”

– Senhor, o que deseja beber?

– Que belo sorriso!

– Obrigada!

– Quero apenas um chope bem gelado, por favor! Estava esperando um amigo, mas ele não virá mais.

– Seu amigo é aqui de New Orleans?

– Não, não é. Mas conhece muito bem essa cidade e já deu a seguinte dica, ou melhor, cantou:

You’ll never know what heaven means
Until you’ve been down to New Orleans
You ain’t been livin’ till you cuddle and coo
Oh, with the black-eyed baby by the old bayou

– Mas é um trecho da canção New Orleans do Elvis muito tocada e cantada por aqui, não é?

– É. E não me pergunte como, mas Elvis Presley agora é também meu amigo assim como Voltaire e Carl Jung.

– Seu amigo? Voltaire?! Quer que eu cancele o chope e traga um café? Um bem forte? Esse calor da Luisiana não é fácil e pode fazer delirar! Hahaha!

– Não minha linda jovem. Traga um chope numa caneca grande e bem gelado porque that’s all right now because I’m leaving town, baby. I’m leaving town for sure!

(Este é o quarto episódio da série. Para saber como tudo começou leia o primeiro episódio de Café Insólito: Voltaire)

Contact me at Writer@Alemarins.com

One thought on “Café Insólito: Elvis Presley

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