Home

Enquanto aguardo o avião decolar do aeroporto de Lisboa em direção a São Miguel, uma das ilhas que compõem o Açores, a música de fundo tocando é uma velha conhecida minha:

I’ll just keep playing back
These fragments of time
Everywhere I go, this moments will shine
I’ll just keep playing back
These fragments of time
Everywhere I go, this moments will shine
 
Familiar faces I’ve never seen
Living the gold and the silver dream
Making me feel like I’m 17

Cecilia MeirelesFragments of Time do Daft Punk é uma das canções que tenho ouvido com frequência. “Estes fragmentos de tempo, onde quer que eu vá estes momentos brilharão. Rostos que são familiares, mas que eu nunca vi”. Tenho pensado se os últimos eventos onde conversei com personagens famosos da história estão relacionados com algum tipo de viagem no tempo ou algo assim. “Rostos que são familiares” apenas por fotos ou pinturas, mas que “nunca conheci pessoalmente” exceto nesses cafés insólitos nos quais tenho estado envolvido. Nunca imaginei nem nos sonhos ou pesadelos mais alucinantes que algum dia conversaria com Voltaire, Carl Jung e muito menos Elvis! Cresci ouvindo as músicas dele e não imaginava que por trás daquela fachada de super astro haveria um homem inseguro, mas esperançoso em relação ao futuro da humanidade além é claro de sua marca registrada: o romantismo. Já imaginei como seria um café com os três juntos: Voltaire, Jung e Elvis! Com tanta coisa acontecendo neste sentido quem sabe um dia isso possa ocorrer. De qualquer modo essa canção do Daft tem tudo a ver. Quanta coincidência. Aliás coincidências demais para o meu gosto ultimamente.

– Bom dia! Sr. Alexandre?

Interrompido em meus pensamentos pela comissária de bordo.

– Bom dia! Sim, sou eu. Por que?

– Tenho prazer de informa-lo que acaba de ganhar um ‘upgrade’ para classe executiva. Por gentileza queira me acompanhar.

Falando em coincidências, será mais uma? Não pedi nenhum ‘upgrade’.

– Aqui está. Sinta-se à vontade.

– Muito obrigado.

– Algo para beber?

– Sim, água, por favor.

Nada mal um ‘upgrade’ inesperado embora para uma viagem relativamente curta. Na poltrona ao lado uma jovem senhora está olhando atentamente pela janela. Parece estar com o olhar bem distante. Vou dar apenas um bom dia e me apresentar afinal viajaremos juntos por algumas horas.

– Bom dia, muito prazer, Alexandre. Seu nome?

– Bom dia, Cecília. O prazer é meu. A propósito, este avião está indo para onde mesmo?

Que senso de humor ela tem! Perguntar para onde este avião está indo é uma boa maneira de descontrair e dar continuidade a uma boa conversa. Gostei.

– Saindo daqui de Lisboa direto para a ilha de São Miguel nos Açores. A não ser que o piloto decida ir para alguma outra das nove ilhas.

– Que interessante! Um grande amigo meu mora na ilha de São Miguel, o poeta Armando César Côrtes-Rodrigues. Conhece?

– Sinceramente, não. Nunca ouvi falar.

– Mas já ouviu falar de Fernando Pessoa? Os dois foram bons amigos.

– Ah sim, Fernando Pessoa acho que poucos são os que não leram pelo menos um de seus poemas! Mesmo após décadas de sua morte ele ainda é muito famoso e suas obras influenciam muitos em pleno ano de 2013.

– 2013? Como assim em 2013?

Fragmentos de Tempo, “living the gold and the silver dream”. Parece que vai começar mais um. Embora eu já possa deduzir pelo primeiro nome e ligação com Portugal, mas vou perguntar mesmo assim, só para confirmar quem imagino que seja.

– Sim, estamos em Outubro de 2013. Seu primeiro nome é Cecília e o sobrenome?

– Meireles. Cecília Meireles. Como é possível eu estar num avião com destino aos Açores em Maio de 2013? Um sonho tão rico em detalhes. Deitei-me um pouco tarde na noite passada é verdade, mas um sonho assim é a primeira vez. Como é possível?

– Cecília Meireles, a escritora. Foi a primeira pessoa que me veio à mente quando me disse seu nome. A famosa escritora brasileira! Mais uma vez, muito prazer em conhece-la!

– O prazer é meu. É muito estranho, mas sinto-me tão bem neste momento! É como se tivesse voltado aos meus trinta e poucos anos de idade. Se isso é um sonho então espero que não acabe. O que será que você está fazendo no meu ‘sonho’?

– Estou neste avião rumo aos Açores para praticar mergulho. Existem locais excelentes para essa atividade na região. Não vejo a hora de ver os cardumes de chicharros, cavalas, bicudas, atuns de barbatana amarela, entre outros. Espantoso é sempre o deparar com uma manta, o que não é de todo assim tão raro, mesmo com algumas espécies de maiores dimensões. As tartarugas também se costumam fazer notar por aquelas bandas. Outras espécies mais pequenas da vida subaquática como lagostas, polvos, estrelas, ouriços e aranhas do mar, moreias, enfim a expectativa é grande! E completando a resposta: isso não é um sonho, mas acho melhor conversamos sobre outras coisas e aproveitarmos o tempo.

– Você disse que estamos em 2013. Isso significa que o grande temor de um holocausto nuclear e a Guerra Fria terminaram, correto?

– Sim Cecília, a Guerra Fria terminou em 1991. E a União Soviética deixou de existir.

– Quer dizer que a humanidade evoluiu e vivemos o período de paz tão desejado por todos? O medo não mais aprisiona as pessoas?

– Sinceramente, gostaria de responder esta pergunta com um grande “Sim”, mas os atuais 7 bilhões e meio de habitantes deste belo planeta ainda vivem conflitos pessoais que ultrapassam fronteiras e as guerras continuam, em parte, como um reflexo disso. Parece que o foco em coisas e em obter poder tornou-se mais importante que fazer o bem não importa a quem.

– Alexandre, acredito que para as coisas mudarem é preciso amar as pessoas e usar as coisas e não, amar as coisas e usar as pessoas. Não acha?

– Sim, acho que está certa. E sentir-se usado é uma das piores coisas na vida. Hoje o “parecer ser” tornou-se mais importante do que ‘realmente ser’. Com tanta futilidade parece que a vida perdeu o sentido para muitos. E para você, Cecília, o que é a vida?

– A vida só é possível reinventada. Anda o sol pelas campinas e passeia a mão dourada pelas águas, pelas folhas…Ah! tudo bolhas que vem de fundas piscinas de ilusionismo… — mais nada. Mas a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada. Vem a lua, vem, retira as algemas dos meus braços.  Projeto-me por espaços cheios da tua Figura.  Tudo mentira! Mentira da lua, na noite escura. Não te encontro, não te alcanço…Só — no tempo equilibrada, desprendo-me do balanço que além do tempo me leva.  Só — na treva, fico: recebida e dada. Porque a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.

– A vida só é possível reinventada… interessante sua resposta em forma de poema. Não posso esperar menos do que isso de uma grande poetisa.

– E para você, o que é a vida?

– Bem, Cecília, não sou poeta como você, mas já meditei bastante sobre o assunto. A vida hoje é como uma bruma que surge no horizonte e logo se desvanece. Ou seja, a vida é curta. “Tem de passar depressa, e lá saímos voando”, talvez em 70 ou 80 anos. E que não importa onde se viva ou a qual classe social pertença, os humanos vêm e vão como a erva verde, uma sombra passageira, uma exalação. Embora acredito que seja atualmente apenas um esboço do que seria a verdadeira vida afinal a ciência já comprovou que temos o potencial de renovação contínuo e que nosso cérebro pode armazenar informações indefinidamente. Acredito que exista um objetivo e propósito que ainda não foram atingidos.

– Uma bruma que logo desvanece, uma jornada curta. Fazem lembra-me de algo que escrevi:
Sou entre flor e nuvem, estrela e mar. Por que havemos de ser unicamente humanos, limitados em chorar? Não encontro caminhos fáceis de andar. Meu rosto vário desorienta as firmes pedras que não sabem de água e de ar.

– Limitados em chorar? Não encontrar caminhos fáceis de andar. Como você procura viver o dia-a-dia, Cecília?

Não seja o de hoje. Não suspires por ontens…. Não queiras ser o de amanhã.

– E dessa forma você encontrou a felicidade?

– Alexandre, houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz. Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz. Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

– É possível aprender a olhar dessa forma? Ou só os poetas conseguem faze-lo?

– O que você acha, Alexandre? Como olhas?

– Cecília, acho que de tanto olhar para longe, não vejo o que passa perto, meu peito é puro deserto. Subo monte, desço monte. Eu ando sozinho ao longo da noite. Mas a estrela é minha.

– Isso me soa muito familiar!

– Hahaha! Claro que sim. É um poema seu, Cecília, do qual gosto muito! Acho que ultimamente olho ao longe mais do que deveria.

– Mais do que deveria? Depende muito de quão longe olhas e se isso inspira ou paralisa.

– Oscila entre os dois, Cecília, as vezes inspira e em outras, paralisa.

– Quando paralisa é por medo? Por indecisão?

– Creio que é mais por indecisão. Algum ‘insight’?

– Um poema para que medites: Não vou deixar a porta entre aberta.  Vou escancara-la ou fecha-la de vez. Porque pelos vãos, brechas e fendas…passam semiventos, meias-verdades e muita insensatez.

– É, acho que entendi o ponto. E conversando contigo sinto que devo fechar essa porta de vez; para sempre.

– Se sabes qual é a porta e que deves fecha-la então olhe ao longe, mas com um novo olhar. Não faças de ti um sonho a realizar. Vai. Sem caminho marcado. Tu és o de todos os caminhos.

– Sim, um novo olhar. Cecília, aceita um pouco de café? Vou solicitar ao serviço de bordo.

– Ah claro, aceito. Vem numa boa hora.

– Não sei dizer quanto tempo ainda nossa conversa irá durar, mas permita-me perguntar sobre um acontecimento trágico em sua vida familiar e como o superou? Não quero deixa-la triste, por isso entenderei perfeitamente se não quiser falar a respeito.

– Quando não quero falar sobre algo sei deixar isso bem claro, por isso pergunte e saberá! E não se preocupe em deixar-me triste afinal não sou alegre nem sou triste: sou poeta!

– Lembro-me de ter lido que seu primeiro marido, Fernando Dias um artista plástico português, cometeu suicídio após passar por várias crises de depressão. Como foi enfrentar e superar isso?

– Alexandre, fomos casados por 13 anos e tivemos 3 filhas. Infelizmente, Fernando nunca aceitou fazer nenhum tratamento. O preconceito existente sobre a doença e os tratamentos disponíveis foram possivelmente fatores que pesaram na relutância dele em aceitar ajuda.  Acredito que no século XXI com tantos avanços, a depressão tornou-se facilmente tratável, não é?

– Cecília, a depressão foi apelidada de doença do século XX. Na verdade, a predição de Sigmund Freud sobre o aumento de distúrbios emocionais e mentais está se cumprindo plenamente agora no século XXI. Acho interessante também a definição de Carl Jung sobre isso. Ele chama de ‘retorno do reprimido’.

– ‘Retorno do reprimido’? O que isso significa?

– Jung explicou que sentimentos reprimidos retornam como histeria. Sensações reprimidas se manifestam em fobias, compulsões e obsessões. Também que a saúde mental e física de qualquer indivíduo dependem do desenvolvimento da função negligenciada e de estar consciente dos quatro tipos em funcionamento em si mesmo para alcançar uma personalidade equilibrada. Tem vários outros detalhes se estiver interessada.

– Sim, estou. Você leu as obras dele?

– Bem, digamos que li algumas, mas esse assunto ele explicou e ilustrou pessoalmente numa conversa que tivemos numa situação bem parecida a essa em que estamos agora.

–  Realmente tudo isso é muito insólito. Gostaria de saber mais detalhes de como foi essa conversa que teve com Jung.

– Cecília, eu tenho aqui os detalhes dessa e de outras conversas. Passei a escreve-las e publicá-las num blog na Internet, mas tenho também impresso. Iria manda-las pelo correio para meu pai, ele não é muito chegado em usar a Internet. Tome, fique com você.

– Muito obrigada! Vou ler com muita atenção e carinho. E o que são essas coisas que mencionou: blog, Internet?

– Posso lhe explicar o que são, mas gostaria de voltar ao assunto sobre o qual estávamos conversando. Após ficar viúva e com três filhas, o que fez para seguir em frente?

– Alexandre, há pessoas que nos falam e nem as escutamos, há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam mas há pessoas que simplesmente aparecem em nossas vidas e nos marcam para sempre. Foi assim no meu caso em meu primeiro casamento. Passado algum tempo encontrei alguém com quem decidi ter um novo começo, um novo amor.

– Ele também é do seu meio? Quer dizer, um escritor, poeta ou artista?

– Não. Heitor é um professor e engenheiro agrônomo.

– Você disse: um novo amor. Acho bem interessante a definição do famoso filósofo Voltaire sobre amor e paixão. Qual é a sua definição? Certamente será em forma de poema!

– E qual é a definição de Voltaire, fiquei curiosa em saber?!

– Cecília, está tudo aí nestas folhas que lhe dei. Contém as histórias que escrevi até o momento incluindo a definição de Voltaire sobre amor e paixão.

– Está bem, estou ainda mais curiosa em ler todas essas histórias!

– Espero um dia poder ouvir sua opinião sincera sobre tudo que escrevi até agora, mas quero ouvir sua definição, o que a poetisa tem a dizer!

– O Amor… É difícil para os indecisos. É assustador para os medrosos. Avassalador para os apaixonados! Mas, os vencedores no amor são os fortes.  Os que sabem o que querem e querem o que têm!  Sonhar um sonho a dois, e nunca desistir da busca de ser feliz, é para poucos!

– Belas palavras Cecília! Dá muito em que pensar. Realmente é para poucos, tenho certeza absoluta disso! De onde busca tanta inspiração?

– Tudo é vivo e tudo fala ao nosso redor, embora com vida e voz que não são humanas, mas que podemos aprender a escutar, porque muitas vezes essa linguagem secreta ajuda a esclarecer o nosso próprio mistério.

– Aprender a escutar. Discernir. Observar. Que as palavras faladas sejam poucas, mas as ouvidas muitas!

– Percebo que és observador e parece meditar muito enquanto conversamos. E se gostas de escrever então procure aprender uma lição do vento.

– Uma lição do vento? Como assim Cecília?

– O vento é sempre o mesmo, mas sua resposta é diferente em cada folha. Somente a árvore seca fica imóvel entre borboletas e pássaros.

– Vento. Árvore seca, acho que entendi.

– Acho que vou tomar mais um pouco de café. De repente comecei a sentir um pouco de sono embora nossa conversa esteja extremamente interessante. É estranho, não costumo ter sono a essa hora do dia. Será que falta muito para chegarmos a ilha de São Miguel?

– Creio que não, logo o avião estará pousando. O voo está tão tranquilo. Perfeito para as belas palavras que ouvi.

– Alexandre, ai, palavras, ai, palavras, que estranha potência a vossa! Todo o sentido da vida principia à vossa porta; o mel do amor cristaliza seu perfume em vossa rosa; sois o sonho e sois a audácia, calúnia, fúria, derrota. Ai, palavras.

– Sim, ai palavras!

– Preciso ir ao toalete, mas volto logo para continuarmos nossa conversa. Tenho muitas perguntas! Quando chegarmos a ilha, se quiser podemos almoçar em algum lugar e continuar. Acredito que temos ainda muito pra falar.

– Espero que sim, mas vamos supor que não nos vejamos assim tão breve. O que diria?

– Alexandre, vou ao toalete e já volto, mas penso que sendo o céu redondo, um dia nos encontraremos.

– Sim, acredito que sim. Ou será apenas mais um fragmento de tempo.

Já se passaram uns dez minutos desde que ela foi ao toalete. Baseado em experiências recentes acho que ela não vai voltar para se sentar aqui ao lado. Interessante é que levou a bolsa e as folhas com as histórias que escrevi. O sistema sonoro de bordo parece que está informando algo.

– Senhores passageiros, solicitamos a gentileza que todos retornem aos seus assentos e utilizem o cinto de segurança. Estamos iniciando os procedimentos de descida para o pouso na ilha de São Miguel.

– Mais uma história fascinante a ser escrita. Uma poetisa encantadora e inspiradora! Citando a própria Cecília: Hoje desaprendo o que tinha aprendido até ontem e que amanhã recomeçarei a aprender.

Nos encontraremos no próximo Café Insólito!

(Este é o quinto episódio da série. Para saber como tudo começou leia o primeiro episódio de Café Insólito: Voltaire)

Contact me at Writer@Alemarins.com

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s