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Café Insólito é uma série de ficção onde personagens famosos da história batem um papo e tomam café com um cidadão comum do século XXI, em geral, em algum lugar pitoresco do planeta. As declarações de tais personagens, em sua maioria, resultam de pesquisas sobre os mesmos e são colocadas de um modo conversante, sendo o contexto algo que pode variar numa pergunta ou outra.

Viagem no tempo? Realidade Virtual? Mero sonho? Ou o quê? Tente descobrir a resposta a cada novo episódio de Café Insólito.

Nota: Para entender como tudo começou veja o primeiro episódio em um dos links abaixo:
Café Insólito (Facebook Group)
Café Insólito: Voltaire (WordPress)

Este é o sétimo episódio da série. Leia os demais episódios aqui: Café Insólito

Café Insólito: Paul Gauguin

Paul Gauguin

Paul Gauguin

Mariánské Lázně na República Checa é um lugar ímpar. Inúmero SPAs, colunatas românticas, pavilhões charmosos, cafés e hotéis aconchegantes. Há inúmeras fontes de águas termais e minerais com propriedades terapêuticas. A atmosfera neste lugar é realmente cativante e diferente do que já vi nestas inúmeras viagens. Hospedei-me no hotel Agricola, sim este é o nome do hotel em homenagem a Georgius Agricola considerado o pai da geologia e mineralogia que viveu lá pelos idos dos anos 1530.

Num rápido passeio pelas instalações do hotel, qual não é minha surpresa ao deparar-me com inúmeras pinturas do famoso pintor francês Paul Gauguin. Durante parte da viagem li um livro bem interessante sobre Gauguin. Falando em viagem, preciso sair correndo para a estação de trem. Já tenho passagem comprada em direção a Praga.

Na estação o painel indica que o próximo trem para Praga sairá as 7:03. Embora possa soar estranho, 7:03, na Europa esses horários são respeitados e se você chegar as 7:04 é quase certo que perderá o trem. Depois de tomar um café checo que lembrou bastante o café americano, já estou acomodado numa das espaçosas cabines do trem rumo a Praga! Com direito a belas paisagens durante uma viagem de aproximadamente duas horas e meia.

I get up, and nothing gets me down.
You got it tough. I’ve seen the toughest around.
And I know, baby, just how you feel.
You’ve got to roll with the punches to get to what’s real
Oh, can’t you see me standing here?
Ah, I might as well jump. Jump!
Might as well jump.
Go ahead, jump. Jump!

Parece que acabei caindo no sono, mas ainda bem que tinha um alarme configurado para tocar com uma música que torna bem difícil continuar dormindo: Jump – Van Halen.

– Que aparelho mais esquisito é esse?

Essa pergunta vem de um sujeito sentado na poltrona oposta a minha, a direita. Tem cara de ser francês e provavelmente deve estar querendo tirar onda do meu Windows Phone. Provavelmente é um fã de  iPhone ou Android. Fazer o que? Vou levar na esportiva afinal estou de férias e rumo a Praga!

– Nunca vi um aparelho tão estranho! E essa música que tocou, o que quer dizer? Pular, mas pular para onde?

Essa situação é bem familiar. Parece um Déjà vu. Provavelmente faz parte do projeto Auferstehung quando tudo começou com Voltaire. Acho melhor apresentar-me e descobrir quem é esse sujeito.

– Será um prazer falar um pouco sobre o significado dessa música, mas antes de mais nada, muito prazer, meu nome é Alexandre e o seu?

– Ah sim, desculpe-me. Estou um pouco confuso, parece um sonho. Meu nome é Paul Gauguin, muito prazer.

– Paul Gauguin, o famoso pintor francês do século 19?

– Sou francês e pintor, mas não sou famoso ainda. Talvez entre meus amigos achegados e possivelmente ficarei famoso após minha morte assim como aconteceu com meu amigo Van Gogh. Estou curioso, o que essa música quer dizer?  E também, onde estamos afinal?

– Paul, o significado dessa música é interessante. Um dos autores dela, David Lee Roth, explicou que contrário do que muitos começaram a especular dizendo que tratava-se de uma apologia ao suicídio, ela na verdade incentiva a “Pular” para a vida. Tomar uma decisão, ação e não ficar na indecisão. Mesmo após enfrentar problemas ou diante de dificuldades e obstáculos, siga em frente, por assim dizer: Jump! A canção também diz: Levantei-me e nada vai me colocar pra baixo. Com uma letra dessas e um som eletrizante é difícil ficar parado, não é mesmo?

– Muito interessante entender o significado. Fiz isso há algum tempo atrás, digo, dei um “Jump” na vida. Mas antes de continuarmos essa conversa, onde estou afinal?

– Koke estamos em 2014. E neste exato momento dentro de um trem a caminho da cidade de Praga.

– 2014?! Devo ter bebido demais ontem à noite e excedido a dose do ópio prescrita pelo médico para aliviar as dores terríveis que sinto nas pernas devido a doença impronunciável que carrego. E por que chamou-me de Koke? Apenas meus amigos mais achegados sabem deste apelido.

– Vamos perder muito tempo se eu tentar te explicar sobre como estamos conversando em pleno século 21 sendo que você é do século 19. Melhor conversarmos sobre outros assuntos enquanto tivermos tempo. Sei seu apelido porque estou terminando de ler um livro a seu respeito cujo o autor é Mario Vargas Llosa. Quanto a doença impronunciável que carrega, acho melhor dar uma olhadinha aí nas suas pernas, penso que não deva ter nada agora.

– Deixe-me ver. Inacreditável! Não tenho nem marcas! E desde que começou este sonho ou viagem alucinógena sinto-me como se tivesse voltado aos meus trinta anos de idade!

– Koke, isso não é um sonho nem uma viagem alucinógena embora sei que você tomava medicamentos à base de ópio para aliviar os sintomas da doença impronunciável.  Também não peça pra explicar porque isso ocorreu, ainda não sei os mecanismos que tornaram isso possível. Mas você está aqui, em carne e osso. Aproveite e tome um pouco de café. Sei que é um apreciador.

–  Alexandre, se realmente estamos em 2014 e estou sentindo-me tão bem isso significa que encontraram a cura para a doença impronunciável e para tantas outras? Achei o paraíso perdido, finalmente?

– Paul embora ‘a doença impronunciável’ ainda atinja milhares de pessoas todos os anos, existe tratamento. O problema é que agora existem outras ainda piores que não possuem cura. A raiz do problema é outro e se der tempo poderemos falar mais a respeito. Falando em 30 anos de idade, por que decidiu largar seu emprego na Bolsa de Paris, um cargo de prestígio e status além de ser muito bem remunerado para ir morar no Taiti? Ahhh e não estamos no paraíso, pelo menos não ainda.

– Quando ouvi essa música “Jump” vindo deste estranho aparelho que carregas e entendendo agora o significado, foi exatamente isso que fiz. Larguei tudo e ‘pulei’ para o Taiti, o paraíso perdido!

– Koke, quais foram as razões para uma mudança tão radical como essa?

– Alexandre, até os meus trinta anos de idade eu jamais havia pintado um traço sequer, nenhum desenho. Na verdade sempre achei que os pintores com suas esquisitices fossem todos uns maricas!  Algo, porém despertou em mim um desejo incontrolável em expressar-me através da Arte.

– Que faísca foi essa que acendeu tal chama incontrolável?

– O dia, que pela primeira vez, vi aquela que considero uma obra-prima: “Olympia”, de Manet. Depois um grande amigo, Schuffenecker ajudou-me a aprender pintura. Também ali começaram os problemas em meu casamento com Sophie. Eu pintava as escondidas. Ela não suportava a ideia.

– Entendo; mentiras e falta de apoio: o começo do fim. E por que o Taiti?

– Pouco tempo depois de completar 35 anos de idade, a Bolsa de Paris quebrou. Somado a isso havia o meu menosprezo pelas convenções tacanhas da cultura e da sociedade européias. E minha constante busca por uma vida simples, num paraíso de paz e sol. Longe da chamada civilização com seus valores distorcidos. Viver em harmonia com a natureza e pessoas virtuosas, gentis.

– E Paul, conseguiu encontrar isso no paraíso do Taiti?

– Depois de passar dois anos lá tive a certeza de ter encontrado uma fonte de inspiração. O ambiente ali produziu em  mim um  renascimento artístico. Meus quadros passaram a refletir um de meus temas preferidos: a beleza simples das pessoas. Os rostos que pintei refletiam serenidade, confiança e satisfação. Ao voltar a Europa declarei: “- Nada vai me impedir de ir embora de uma vez para sempre. Que vida fútil levamos na Europa!”.

– Vida fútil na Europa do século 19? Você não tem ideia do que é futilidade Koke! Passe uns tempos aqui no século XXI e encontrará uma nova dimensão do que é fútil.

– Quanto vale no século XXI uma pintura de minha autoria ou de Van Gogh?

– Milhões. Se bobear, acho que dá pra comprar o Taiti. Por que a pergunta?

– Que fator alterou a percepção da Arte? Os quadros não mudaram. O artista morreu. Van Gogh, por exemplo, vendeu apenas uma pintura enquanto vivo e isso porque seu próprio irmão arranjou um modo de fazê-lo sem que Van Gogh o soubesse!

– Acho que isso ocorre porque o artista, especialmente quando se torna renomado, vira uma marca. Os críticos passam a avaliar como autentico tudo que vem dessa ‘marca’. Aqueles que compram daquela marca exclusiva querem ser aceitos por um grupo exclusivo. Como o artista morto não pode produzir mais nada, suas obras passam a ser disputadas por aqueles que buscam algum tipo de reconhecimento na sociedade da qual fazem parte.

– Um ponto de vista interessante, Alexandre. Estávamos falando sobre futilidade. A futilidade favorece a mediocridade. Existe sempre uma grande demanda por novas mediocridades. Em todas as gerações, o gosto menos desenvolvido tem o maior apetite.

– Falando em vida fútil e sem significado; sua busca pelo paraíso e a felicidade, no Taiti, foi bem-sucedida?

– Após alguns anos num lugar tão magnífico e longe da civilização ocidental, fui obrigado a reconhecer, que mesmo lá, toda a vida sucumbe à morte.  Confesso que passei a sentir-me triste, e isso afetou meu trabalho. Faltava alegria nas minhas pinturas. Passei a ter minha mente fixa num paradoxo.

– Qual paradoxo Gauguin?

Gauguin– Mesmo num ambiente paradisíaco não encontrei respostas as grandes questões sobre a vida. Com a cabeça fixa nesse paradoxo pintei o que considero uma de minhas obras-primas: D’oú venons-nous? Que somme-nous? Oú allons-nous?

De onde viemos? O que somos? Para onde vamos? Sim, nunca a vi pessoalmente, apenas reproduções, mas está na minha top list das obras de arte.

– Tentei expor através dela minha incompreensão do mundo, o insondável mistério de nossa existência. Toda pessoa consciente alguma vez na vida buscou respostas a essas perguntas; a maioria desiste de continuar buscando. Não seria esse um motivo do por que, em seu século XXI, exista tanta futilidade? A maioria parou de buscar as respostas?

– Gauguin, tudo que é valioso e valha a pena exige persistência, coragem e muito esforço. As respostas existem, mas não estão na superfície, é necessário cavar fundo como que procurando por diamantes. Muitos não estão dispostos e acabam desistindo, outros tem medo de encontrar tais ‘diamantes’ porque temem as mudanças que isso poderá ocasionar em suas vidas. O que o mestre da pintura acha?

– Mestre? Não, sou apenas um homem deslumbrado com a Arte. Na arte, todos que fizeram algo diferente de seus predecessores mereceram a denominação de revolucionários; e são somente eles que são mestres. Quanto à sua pergunta, tenho dúvidas se tais ‘diamantes’ realmente existem. Pensei que os encontraria na paradisíaca ilha do Taiti. Mas já que estamos no século XXI pode ser que encontraram as respostas expressas em minha obra D’oú venons-nous? Que somme-nous? Oú allons-nous?

– Koke, as respostas já existiam na sua época. Era necessário ‘cavar fundo’ e no local certo.

– E quais são as respostas?? Essa tem sido a busca de minha inteira vida!

– Pense nisso: Quando você desembarcou no Taiti estava à procura do que?

– Do paraíso e da felicidade. Uma vida em harmonia com a natureza sem as convenções hipócritas e fúteis da sociedade europeia da qual eu era parte integrante.

– E o que encontrou?

– Encontrei um lugar paradisíaco, exuberante, com incontáveis rios e quedas-d’água. A vegetação tropical luxuriante parecia crescer sem nenhum cultivo. A beleza idílica se tornava ainda mais convidativa em vista do seu clima agradável e da ausência de perigos tropicais. Não havia cobras, insetos perigosos nem vulcões ativos. Os taitianos  me impressionavam — eram altos, bonitos e saudáveis. Seus dentes brancos enchiam de admiração os marujos desdentados devido ao escorbuto. A simpatia e a hospitalidade desse povo logo me conquistaram. Tive a impressão, pelo menos à primeira vista, de que havia igualdade social — o sonho da literatura utópica. Não havia pobreza nem restrições sexuais.

– E por que não encontrou a verdadeira felicidade?

– Acreditava que conseguiria preencher o vazio que sentia por levar uma vida intensa, participar daquela sociedade utópica, sem muitas regras. Tive inúmeros relacionamentos efêmeros que me enchiam de sentimentos bons e energizantes fazendo-me confundir momentos de prazer com felicidade. As festas que eu dava em minha propriedade alugada eram famosas e procurada por muitos na ilha, regadas a muita bebida, músicas das mais variadas, danças e obviamente cheias de ‘amor’ entre todos e todas, sem restrições. Porém nos momentos em que estava apenas comigo mesmo percebia que o vazio apenas tinha aumentado e que eu precisava cada vez mais, de doses maiores e mais constantes de tudo aquilo. Era um círculo vicioso. Também passei a perceber que mesmo ali os nativos adoeciam, envelheciam e por fim morriam. Que aquela sociedade utópica não tinha igualdade social, havia uma hierarquia muito forte. Percebi que havia um paraíso por fora, mas por dentro, ele ainda continuava sendo apenas um paraíso perdido.

– Koke, entendo você perfeitamente! Acho que sua intenção e objetivos eram nobres, mas você estava, por assim dizer, combatendo apenas a febre ou os sintomas nunca atacou a causa, quer dizer, o vazio.

– Alexandre, no século XXI ataque-se a causa?

–  Koke, no século XXI existe uma substância mágica que empurra o vazio lá pra frente, mas ele volta cada vez mais forte. Movimenta bilhões e é consumida por milhões de pessoas. Na sua época chamavam de ópio, mas poucos tinham acesso. Hoje chamamos de ‘droga’ e está ao alcance de todos. Tornou-se o refúgio frágil e ao mesmo tempo a areia movediça de muitos. Por falar nisso, estou ficando com um sono e tanto…

– Mas vamos voltar a minha pergunta, você disse que existem respostas, quais são?

– Carl Jung disse que…Ops! Jung não é da sua época. Parte da resposta está em algo que o filósofo e iluminista Voltaire declarou. Já ouviu falar dele, correto?

– Sim, certamente. O que ele disse que está relacionado a minha pergunta ou ao meu quadro?

– Voltaire declarou: O universo me confunde! Não posso imaginar que tal ‘relógio’ possa existir sem Relojoeiro. O que acha desse pensamento?

– Acho que preciso tomar mais um pouco desse café, o sono também está me atacando, acho que é o balançar do trem. Já meditei muito sobre isso, mas tenho muitas perguntas que fazem com que eu não entenda tal “Relojoeiro”, se é que ele existe.

– Gauguin, você é um artista. Talvez não entenda a dimensão que suas obras tomaram, mas quando vai começar a pintar um quadro, qual é uma das primeiras coisas que faz?

– Eu fecho meus olhos para ver.

– Profundo isso, gostei. Isso significa entre outras coisas que toda pintura sua tem no mínimo um projeto mental. Depois com muita habilidade e qualidade, você o transforma em algo real, numa obra. Muitos depois podem aprecia-la, correto? Sendo que cada apreciador poderá ter suas próprias impressões sobre sua pintura, impressões essas que podem estar ou não relacionadas com seu projeto mental que deu início a ela. Pode até mesmo ser que alguns duvidem que é um quadro seu. (Estou com um sono tremendo).

– Isso pode acontecer. Mas qual é o ponto?

– Koke, se os apreciadores de suas obras de arte pudessem perguntar diretamente ao autor, no caso você, sobre suas pinturas, eles poderiam esclarecer quaisquer dúvidas, correto? Saberiam até mesmo dos pensamentos que o motivaram a pintar esse ou aquele quadro.

– Sim. Acho que entendi o ponto. Mas é possível saber os pensamentos do ‘Relojoeiro’?

Neste instante o trem começa a passar por um túnel e por alguma razão a iluminação da cabine não está acesa. O jeito é aguardar alguns minutos.

– Senhor? Olá! Parece que estava num sono profundo. Desculpe acorda-lo assim. Chegamos a estação de Praga. Felizmente este trem ficará aqui por algumas horas para manutenção caso contrário sabe-se lá em qual cidade da República Checa teria ido parar!

– Senhorita, havia um amigo comigo aqui na cabine. Viu alguém saindo?

– Ah sim! Ele parecia estar com muita pressa, mas deixou este bilhete para ser entregue a você.

– Muito obrigado! Deixe-me ver o que diz.

Abro o bilhete. Há apenas uma palavra com uma assinatura no canto inferior direito:

“JUMP!

P. G. (Koke)

– Senhorita, qual é o melhor lugar em Praga para se tomar uma grande xícara de café?

Até o próximo Café Insólito!

(Este é o sétimo episódio da série. Para saber como tudo começou leia o primeiro episódio de Café Insólito: Voltaire)

Contact me sending an e-mail to  Writer@Alemarins.com

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