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Café Insólito é uma série de ficção onde personagens famosos da história batem um papo e tomam café com um cidadão comum do século XXI, em geral, em algum lugar pitoresco do planeta. As declarações de tais personagens, em sua maioria, resultam de pesquisas sobre os mesmos e são colocadas de um modo conversante, sendo o contexto algo que pode variar numa pergunta ou outra.

Viagem no tempo? Realidade Virtual? Mero sonho? Ou o quê? Tente descobrir a resposta a cada novo episódio de Café Insólito.

Nota: Para entender como tudo começou veja o primeiro episódio em um dos links abaixo:
Café Insólito (Facebook Group)
Café Insólito: Voltaire (WordPress)

Este é o oitavo episódio da série. Leia os demais episódios aqui: Café Insólito

Café Insólito: Shakespeare

Chinese Tower

Chinese Tower

O Jardim Inglês ou English Garten localizado em Munique, Alemanha é um dos maiores parques públicos urbanos do mundo. Maior do que o Central Park de Nova York e se você já visitou o Parque do Ibirapuera em São Paulo, ele caberia duas vezes e meia dentro do English Garten. Isso dá uma ideia de suas dimensões. Foi criado em 1789 e leva esse nome pelo estilo de jardinagem muito popular na Bretanha em meados do século 18.

A curtição aqui é escolher uma mesa qualquer onde já estão várias pessoas, muitas vezes de vários lugares do mundo, começar a trocar ideias enquanto de fundo ouve-se a música animada tocada pela banda situada na Chinese Tower. Uns amigos portugueses deram a dica de pedir um frango assado e super caneco de chope. Com o calor que está fazendo hoje e depois da longa caminhada até chegar aqui é uma combinação perfeita! É comum encontrar algumas celebridades passeando por aqui. Algum tempo atrás, um colega meu encontrou o ator Pierce Brosnan, o famoso agente 007. Quem sabe não encontro a Michelle Pfeiffer, hoje uma distinta senhora, ali parada no jardim. Ahh, acho que vou sentar naquela mesa onde tem uma alemãzinha conversando com um cara fantasiado de nobre inglês do período Elisabetano.

Quando estou me aproximando a alemãzinha levanta-se e parece estar indo em direção aos restaurantes, deve ter ido buscar alguma bebida, o calor hoje deve estar próximo dos quarenta graus!

Sento-me próximo ao camarada fantasiado e começo a puxar conversa:

– Hey, what’s up dude? Do you speak English?

– Hello. If I speak English? Is that a joke? Elisabeth, the Queen can respond you on my behalf. Hummm… Será que ele faz parte de algum show local? Se faz, vou perguntar onde e que horas será a apresentação.

– Muito prazer! Meu nome é Alexandre e o seu?

– William, mas quase todos me chamam por meu sobrenome, Shakespeare. Você é de Londres ou de algum condado?

William Shakespeare. Pensei que meu passeio em Munique teria apenas cervejas e vinhos locais, mas não outro café insólito. Se for mesmo quem diz que é, será uma oportunidade e tanto falar com o maior dramaturgo de todos os tempos! E na verdade, um grande enigma literário!

– Digamos que sou de um condado bem distante, São Paulo. Você nunca ouviu falar, mas acredite, muita gente por lá já ouviu pelo menos uma frase sua alguma vez na vida. Você não está bebendo nada com esse calor?

– Pedi uma bebida, mas não aceitaram meu dinheiro. Disseram que só aceitam uma tal moeda chamada Euro ou então outra ainda mais estranha, dólar. Como não aceitam as moedas de ouro cunhadas na Inglaterra? Por outro lado, não aceitarem as moedas é o menor dos problemas. Até agora não sei como vim parar aqui e por que todos usam roupas que nunca vi além de tantos outros objetos estranhos.

– Hey William, não esquenta. Vou pedir uma cerveja pra você e eu aceito suas moedas de ouro, sem problema nenhum! E enquanto sua bebida não chega posso adiantar algumas respostas a suas perguntas. Estamos no English Garten na cidade de Munique, Alemanha. Estamos no ano 2015 depois de Cristo. Sim, pra você isso é o futuro, pra mim apenas o hoje. Como você veio parar aqui não sei explicar ainda. Sei que está aqui em carne e osso assim como eu. Qual é a última coisa que se lembra antes de perceber que estava aqui no English Garten?

– Parece que isso já lhe aconteceu antes. Bem, a última coisa que me lembro é estar com uma febre forte e contrariando meu médico convidei alguns amigos para tomarmos um bom vinho e conversamos sobre minha próxima obra. Sabes que escrevo?

– Sim, este tipo de conversa insólita já aconteceu antes, digamos que tudo começou com Voltaire. Certamente sei que escreve! A propósito, sabia que há muita especulação se você realmente foi o autor de tantas obras?

– E quais são as teorias especulativas?

– Alguns acham que foram vários escritores e usaram seu nome para assim não revelarem suas verdadeiras identidades. Especulam que Francis Bacon, cardeal Wolsey e até mesmo a rainha Elisabeth I estavam entre os verdadeiros autores. Na verdade, as teorias chegam a dizer que foram cerca de 60 autores!

– Será que essas teorias criaram forças porque meu pai era um açougueiro?

– Hahaha William! Pode ser. Difícil acreditar que alguém possa dominar tantos assuntos como você fez, digo, faz. Especialistas em suas obras confirmam que você possuía um vocabulário com mais de 21 mil palavras!!! Inacreditável!

– Por que, Alexandre, acha inacreditável? Tive uma vida intensa. Viajei os mares à serviço da rainha nos combates contra a armada espanhola. O cérebro humano é um universo e se bem usado, nos abre infinitas possibilidades. Talvez tais especulações surgiram de mentes pouco exercitadas presas a vidas limitadas. O que mais acham sobre minha formação?

– Alguns acham que sua mãe o influenciou muito em sua instrução especialmente em ensinar-lhe sobre a Bíblia. Isso é verdade, William?

– Deveras! E muitos que leem minhas obras nem imaginam que faço centenas, possivelmente, milhares de citações das Escrituras Sagradas, porém usando meu estilo, o qual considero, único!

– Interessante, acho que a maioria de seus leitores ao redor do mundo citam suas frases célebres, mencionam partes de suas obras, mas nem fazem ideia disso. Vivemos aqui no século XXI com uma escassez de grandes mentes e a mediocridade reina solta. Sem dizer que o mundo se tornou um lugar litigioso. Se você escrevesse, hoje, algumas das coisas que escreveu em sua época ou desse sua opinião sobre certos assuntos, esteja certo Sir William: um monte de processos legais cairiam velozmente sobre você!

– Impressionante. Os séculos passaram e parece que minhas conclusões estavam certas. Quanto a um mundo menos litigioso já dei a solução em uma de minhas obras!

– Mesmo? Qual?

– “A primeira coisa que faremos: mataremos todos os advogados” foi minha proposta em uma de minhas peças! Parece que não acreditaram em mim!

– Poxa Shakespeare! Os conceitos negativos sobre os advogados e os sistemas jurídicos são tão antigos quanto a história!

– Deveras! Não são conceitos negativos. Deixe-me explicar. Aqui no século XXI existe algum avanço tecnológico que permita mensurar o nível de honestidade de uma pessoa? Ou um índice mundial de honestidade?

– Sir, avanço tecnológico existe de modo espantoso! Nem imaginas! Mas não conheço nada que faça o que acabou de me perguntar. Por que?

– Porque há uns trezentos anos atrás, declarei: “SER honesto neste mundo é ser um homem dentre dez mil.’ As pessoas na minha época não davam valor a honestidade e por isso o medo de ser enganado pairava sobre a maioria. Isso gera efeitos colaterais. Se você não pode confiar numa pessoa que habita o mesmo lar que você e o medo de suas palavras serem usadas contra ti num futuro incerto passa a ser sua sombra então o campo para florescer o medo está bem fertilizado. Litígios são os frutos colhidos pelos advogados que por sua vez os revendem por uma módica comissão de 30%. Estou certo?

– Sim. Parece que os séculos não mudaram nem mesmo os valores cobrados!!! Ha ha ha!!! Como não existe um termômetro de honestidade visível, qual seu critério para relacionamentos pessoais e profissionais?

– Não confie em pranchas podres!

– Como assim?

– Quero dizer que ANTES de você pisar nas pranchas de madeira de uma ponte, certifique-se de que elas não estejam podres. Sua vida pode estar em jogo. Uso este e um outro princípio para investir ou não em relacionamentos assim como em tomadas de decisão.

– Outro princípio? Qual?

– Este: a pessoa ingênua acredita em qualquer palavra, mas quem é prudente pensa bem ANTES de cada passo.

– Avaliar onde cada passo está nos levando. É, um princípio muito bom. William, de qual obra sua é esta citação?

– Não é minha! Acabei de citar para você um provérbio do sábio Rei Salomão! A educação dada por minha mãe, já mencionada por você lá no começo de nossa conversa, serve-me de um alicerce sólido para tudo em minha vida. E acredito que a maioria das pessoas que apreciam minhas obras nem se dão conta disso!

– Um alicerce sólido para tudo em sua vida! Falando em vida, Shakespeare. O que é a vida?

– Alexandre, antes de responder-lhe, muito obrigado pela cerveja! Muito refrescante neste lindo e quente dia de verão! Não vou pedir outra porque repentinamente começa a atacar-me o principal nutridor no banquete da vida!

– Não por isso, William! Principal nutridor no banquete da vida?

– O sono! Ele é nosso principal nutridor no banquete da vida! Fique privado dele e entenderá perfeitamente o que isso significa.

Neste momento uma garçonete vestindo roupas típicas da região da Bavária (afinal estamos em Munique!) traz um belo bule branco e azul com um aroma maravilhoso de café! Apesar do calor, veio bem a calhar. Vai ajudar Shakespeare a espantar um pouco o principal nutridor no banquete da vida. Ela serve uma xícara para ele e outra para mim, deixa o bule sobre a mesa e diz:

– Não tenham pressa! Estou atendendo ao pedido de um senhor que esteve em nosso restaurante e pagou um bom dinheiro além de uma gorda gorjeta para que este café fosse servido a vocês dois neste exato horário!

– Onde ele está? Gostaria de agradece-lo!

– Creio que isso não será possível. Ele veio aqui logo pela manhã quando abrimos o restaurante, deu estas instruções e pagou pelo serviço. Nem nos disse qual era seu nome. Não deu outros detalhes e além do café pediu apenas para dizer-lhes: “Não é possível viajar ao passado, mas quase todos que lá estiveram, no futuro estarão presentes.” Muito enigmático, confesso! Mas estou só transmitindo a mensagem. Tenham uma ótima tarde! Se precisarem de algo mais basta acenar que virei atende-los!

– Muito enigmático, deveras! Este século XXI é muito estranho! Será que estou sonhando por ter abusado um pouco do vinho?

– Não, Shakespeare! Não é um sonho, mas experimente um pouco desse café. Está delicioso e vai te ajudar um pouco a espantar o sono. Desconfio que nosso bate-papo já está chegando ao fim. Antes que isso aconteça, vamos voltar a minha pergunta.

– Você perguntou-me, o que é a vida?

– Exato. Diga-me, por favor, Sir William.

– Minha definição sobre o que penso ser a vida, é essa:    

     A vida é sombra passageira.
    Um pobre ator que chega, agita a cena inteira,
    Diz seu papel e sai. E ninguém mais o nota.
    É um conto narrado aí por um idiota,
    Cheio de sons, de fúria e não dizendo nada.

– Shakespeare, eu tenho outra pergunta.

– Qual?

– O que é… a vida?

– Apaga-se, apaga-se, efêmera vela! A vida é apenas uma sombra passageira.

– Sir William, a realidade da vida fica muito próxima quando nos reunimos em torno dum leito de morte, geralmente num velório e neste caso, a morte continua sendo uma experiência atemorizante, até mesmo aterrorizante, de se contemplar. Não admiro que exista tanta conjectura e mistério cada vez que a morte fecha o cerco sobre a vida, tão curta, como em sua poética definição. Isso me leva a outra pergunta.

– Novamente, o que é a vida?

– Não. O que é a morte?

– A morte terá o seu dia.

– Sabe, Shakespeare, muitas vezes vejo pessoas tentando confortar quem perdeu um ente querido na morte, mas acho que pode ser pertubador quando alguém garante à pessoa desolada: ‘O tempo é um grande remédio’. Ou pior, pergunte: “Já conseguiu superar isso? ”

– Alexandre, todo mundo é capaz de dominar uma dor, com exceção de quem a sente. Em relação ao pesar, deixe o pesar expressar-se em palavras; o pesar não expresso sussurra ao coração sobrecarregado e lhe sugere que se quebrante.

– Vero! Sir William Shakespeare…você realmente é bom nisso!!! Suas palavras refletem profunda sabedoria.

– Todos podemos e devemos exercitar a mente. É a mente que enriquece o corpo. Vero?

– 100% my dear Sir! E o que dizer do amor, Shakespeare? O que é o amor?

– Amor é uma qualidade que salva vidas. O amor reanima como o sol depois da chuva!

Amor quando é amor não definha
E até o final das eras há de aumentar.
Mas se o que eu digo for erro
E o meu engano for provado
Então eu nunca terei escrito
Ou nunca ninguém terá amado.

– Maravilhoso! E você tem ou teve um grande amor?

– Alexandre, grande ou não, é um amor pobre aquele que se pode medir!

– Faz sentido. Nunca havia pensado por este ângulo. Alguma decepção neste campo durante sua jornada da vida?

– Decepção? Acredito que todos têm e ainda terão outras pela frente nos vários campos da vida. Acredito que se você ama alguma coisa ou alguém, deixe que parta. Se voltar, é porque é seu, se não, é porque jamais seria.

– Shakespeare, sábias palavras! Afinal a matéria-prima que temos em mãos é o presente, concorda?

– Afirmo, por experiência, lamentar uma dor passada, no presente, é criar outra dor e sofrer novamente.

– Tenho que concordar! E pensando no que conversamos até agora, fiquei curioso em saber sua opinião sobre qual característica humana mais te surpreendeu até hoje?

– Sopra, sopra, ó vento hibernal, mas tua rudeza não é tão grande quanto a ingratidão humana!

– Como são animadoras palavras que expressam gratidão. Ainda mais as ações bondosas! Mas, a ingratidão é realmente cortante!

– Meu caro, esse tal café deixou-me bem animado! Antes que o sono volte a atacar, acompanhar-me-ia numa caminhada por este belo parque? Podemos continuar essa interessante conversa. Tenho também muitas perguntas a fazer sobre este século XXI.

– Claro! É uma honra! Mas e aquela jovem senhora que estava sentada aqui contigo antes de minha chegada? Não vai espera-la?

– Deveras, não. Na verdade, ela estava sentada aqui e aproximei-me para pedir informações. Começamos a conversar e quando disse a ela meu nome, começou a rir muito! Deve ser porque expliquei que entre outras coisas, sou um dramaturgo. Ela comentou que é uma atriz conhecida de um lugar chamado Hollywood, mas precisava ir embora devido a um compromisso profissional, entretanto gostaria de conversar comigo novamente. Apresentou-se como Pfeiffer, Michelle Pfeiffer, contudo nunca ouvi falar de tal atriz. Deixou-me este cartão, mas confesso que não sei o significado destes códigos: e-mail, celular seguido de uma sequência de números começando com +1. Acha que consegue explicar-me durante nossa caminhada?

– My dear Sir William! Terei o imenso prazer em explicar-lhe, indeed! Mas com uma condição?

– Uma condição? E qual seria? Ficar com este cartão?

– To be, or not to be, that is the question! Esta talvez seja a expressão mais famosa e citada de todo drama ou literatura desde os seus dias até hoje. Muitos concluem que seu personagem, Hamlet, ao dizer estas palavras está questionando, se é melhor viver ou morrer. É isso mesmo o que você queria dizer com estas palavras?

– Existem mais coisas entre o céu e a terra, Alexandre, do que sonha a nossa vã filosofia! Vamos iniciar nossa caminhada, vou te explicar o que realmente tudo isso significa, mas lembre-se, antes eu tenho muitas perguntas!

– Claro! Vamos! Ahhh, acho que você não vai precisar deste cartão, posso ficar com ele?

Não perca o próximo Café Insólito! Até lá!

2 thoughts on “Café Insólito: Shakespeare

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