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Ramona com apenas 35 anos de idade é uma bem-sucedida advogada.
Head of Legal & Compliance na subsidiária brasileira da MaiorEmpresaDoMundo do século XXI.

Começou a carreira como estagiária em um dos mais renomados escritórios jurídicos de Porto Alegre onde notaram seu talento precoce, talento esse que a levou rapidamente para São Paulo no mais badalado escritório de advocacia da AméricaLatina. Top 1 nos últimos 15 anos.

Num ambiente predominantemente masculino, Ramona sem perder o charme e feminilidade, demonstrou que ter uma memória fotográfica aliada a uma excepcional capacidade de expressar-se perfeitamente são diferenciais que independem de gênero. Coragem e persistência completam seu perfil. 
Não é necessário mencionar que está sempre bem arrumada com estilos importados da Europa onde vive sua mãe.

Ela está a 5 dias do que será sua maior vitória. Um embate que dura cinco anos entre sua empresa e um ex-funcionário. O caso tomou proporções inesperadas e poderá criar jurisprudência levando a uma avalanche de novos processos. A matriz exigiu que Ramona cuidasse pessoalmente do caso agora no Tribunal Superior. Super bem-relacionada consegue obter informações que ajudarão a reverter o desfecho dessa causa. Dizem que advogados não mentem apenas omitem a verdade plena. Não importa se o cliente é culpado, ele deve ser defendido a todo custo. O importante é ganhar a causa. Encontrar brechas nas leis. Quem tem consciência não deveria escolher essa carreira porque se quiser continuar dormindo sem arrependimentos precisará ignorar muitos dos alertas que ela nos dá.

Segunda-feira

Ramona desperta as cinco da manhã, na verdade não conseguiu dormir direito. Ela teve um pesadelo onde está no tribunal, mas chora o tempo todo ao passo que o juiz parece ser um gigante e todos ao redor estão rindo. Ao escolher a roupa do dia percebe que não encontra uma saia ou calça que fique bem. Todas estão folgadas. Ela sorri. Afinal emagreceu. Chega no escritório e ao rever o processo lembradas várias ocasiões que conversou com o ex-funcionário em eventos da empresa e bate-papos no café. No íntimo ela entende o lado dele, mas não há espaço para sentimentos no mundo legal. Aplique-se a lei ou a brecha que ela dá!

Para tornar essa segunda ainda mais ‘blue’, recebe a ligação do dono de um escritório jurídico onde trabalhou convidando-o para um almoço executivo, mas ela educadamente responde que não está mais nessa de sair pra comer com chefes e muito menos ex-chefes.

Terça-feira

Ramona acorda morrendo de fome. Corre para cozinha e devora quatro fatias de pão com queijo branco, uma barra de chocolate, duas bananas com granola e um copo grande deleite com Ovomaltine afinal raciocina:

Estou emagrecendo! Posso comer de tudo!

Agora de volta ao espelho percebe que uma sobrancelha está bem menor que a outra, parece até que passaram uma borracha em metade dela. Horrorizada, atribui isso ao estresse e simplesmente usa um corretor. Não há tempo agora. Depois de ganhar a causa tudo será possível. No escritório participa de reuniões com a matriz. Sinalizam que confiam plenamente nela e que o CEO gostaria de vê-la num futuro próximo como VP nos EUA ou Europa. Algo a deixou perturbada. A matriz mostrou evidencias que comprovam as alegações do ex-funcionário, mas que não serão de forma alguma reveladas. Lá no fundo sua consciência soou aquele alarme que todas as consciências soam vez ou outra, alguns ouvem outros não.

Outlook alerta que é hora de passear com a Luli, a linda Yorkie que ganhou do ex-marido. Não vai dar tempo hoje e nem será possível pedir para o Fernando fazer isso afinal já não estão mais namorando, parece que ele cansou de sempre estar no banco de reservas esperando ser convocado quando sobra uma vaga na agenda. 


Quarta-feira

O despertador toca uma, duas, três e tantas outras vezes até cessar. Ramona continua dormindo. Nove horas. Dez. Meio-dia. Algumas batidas na porta. Dinorah, a moça que faz a limpeza semanal, abre a porta e surpresa vê Ramona em sono profundo.

Dona Ramona! Se soubesse que a senhora estaria de folga não teria vindo hoje. Desculpe!

Ramona acorda espantada e pergunta que dia é hoje.

 – Quarta-feira dona Ramona. A senhora está de folga?

Ramona olha com desespero para o celular: quase 1 da tarde, dezenas de chamadas não atendidas, mensagens de voz. Ela pede pra Dinorah preparar um café. Ao levantar percebe que a cama está toda molhada. Como se tivessem jogado um balde d’agua. Ao escovar os cabelos percebe que muitos fios caem, anormalmente. Decide ir ao médico. Não encontra nenhuma roupa que sirva. Os sapatos não servem, todos folgados. Coloca um conjunto esportivo e tênis. Já no hospital, o melhor da América Latina, inúmeros exames. O médico não consegue fazer um diagnóstico exato e aciona uma junta médica.

Horas depois, Ramona ouve de seu médico:

–  Não temos um prognóstico ainda. Parece que o estresse excessivo está causando um grande distúrbio no seu organismo, como se ele estivesse se recompondo. Recomendo que vá pra casa e simplesmente descanse. Desligue-se de tudo e descanse, durma. Alguns resultados sairão em 48 horas. Até lá, fique em casa e descanse. Se não conseguir dormir, tome uma pílula dessas.

Quarta-feira à noite. Ramona responde os e-mails e mensagens de voz. Faz uma reunião via Skype com a matriz, explica que passou o dia no hospital. Pedem que ela descanse e na quinta-feira enviarão uma equipe para trabalhar com ela em casa. Também uma médica particular. Duas da manhã. Ramona toma uma pílula e apaga.

Quinta-feira

Ramona desperta e corre para o espelho. Parece que tudo está igual. Um certo alívio. 

Oito horas em ponto a equipe chega no apartamento e começam o trabalho. Revisões. Ensaios. Fazem um raio-X do juiz que está a frente do caso. A médica particular chega e faz alguns exames. O quadro de Ramona parece estável, mas recomenda que ela tira uma licença médica imediatamente. Ramona explica que isso é ‘impossível’ porque amanhã será o grande dia e depois disso irá tirar 30 dias de férias algo que nunca fez em toda carreira. A médica insiste, mas em vão.

O expediente remoto termina mais cedo. Todos concordam que Ramona está muito bem preparada e super munida com as informações que decidirão o caso a favor da empresa.

Pela primeira vez em muitos anos ela terminou o expediente as 17 horas. Então decide ir sozinha a seu restaurante preferido. Vai caminhando. Ainda não consegue achar nenhuma roupa e sapato que sirvam, mas dá uma improvisada. Conserta as sobrancelhas que sumiram e vai.

No caminho encontra algumas amigas e amigos que já não via há anos! No dia a dia está sempre comendo porcarias, mas hoje a noite merece algo especial. Já no restaurante, pede seu prato favorito e uma garrafa de Don Melchor.

Recebe uma ligação de seu pai com quem fala quase todos os dias por telefone, recebe alguns conselhos finais para o caso de amanhã e a garantia que tudo irá acabar bem. Que todo esse problema de saúde irá desaparecer assim que esse caso for encerrado e todo o trabalho estressante terá valido a pena. Em seguida sua mãe liga de Paris para saber como andam as coisas e que semana que vem estará de volta para colocarem a conversa em dia bem como entregar as encomendas da última moda da cidade-luz.

Por alguns minutos Ramona tem um lapso momentâneo de lucidez: se comer e beber, conversar com pessoas queridas, rir e aproveitar as coisas boas que a vida oferece mesmo as mais simples que não exigem muito dinheiro são aquelas que fazem a vida valer a pena, ela se pergunta: 

– O que estou fazendo aqui sozinha? Nem os médicos sabem o que tenho.
Meu casamento naufragou. Achei que encontraria alguém que me completasse, mas agora vejo: me tornei uma pessoa mandona e implicante.

– Sempre disse que ‘ninguém é de ninguém’, porém hoje vejo que gostaria muito de pertencer a alguém. Não tenho filhos e a idade começando a pesar. Passo boa parte dos meus finais de semana dormindo. O que realmente quero da vida? Que legado deixarei se hoje eu simplesmente desaparecer da face da Terra?

Agora não é hora de pensar nisso. Prioridades. Amanhã é o grande dia!
O futuro será brilhante!

Sexta-feira

O grande dia. Ramona não conseguiu dormir bem. Tomou duas pílulas, mas ainda assim o sono não veio. Todos os sintomas daquela semana voltaram, porém mais intensos. Só tomou uma xícara de café espresso. Chamou uma amiga que é maquiadora profissional porque acordou irreconhecível. Após três horas de arruma aqui e ali ficou ‘pronta’. Como nenhuma roupa lhe servia mais, no dia anterior havia comprado um conjunto novo, três números menor. Ficou perfeito hoje. Está se sentindo muito fraca, mas toma alguns medicamentos receitados ontem pela médica. Afinal, só mais hoje, depois férias e com esse caso ganho haverá o merecido reconhecimento com a tão sonhada relocação para os Estados Unidos ou então Europa possivelmente Londres. O tempo para as outras coisas boas da vida está logo ali. Só mais esse caso. Ramona raciocina:

–  Tenho que ser forte. Usar todas minhas energias. Nossas evidências e argumentos reverterão a decisão das instancias anteriores. O juiz do caso, por coincidência, estudou com meu pai. Não tem como dar nada errado!
Faz tempo que não oro e acho que é uma boa hora para voltar a fazer isso. Talvez até fazer uma promessa!

Enquanto no aeroporto, por uma daquelas coincidências da vida, reencontra o ex-colega de trabalho que está indo para a mesma cidade onde haverá o julgamento. Cumprimentam-se e ela fica impressionada com a paz que parece refletir do rosto dele. Ele nem imagina como ela está doente, mas certa da vitória. Ele embarca. Ela está em outro voo. A companhia reservou algumas poltronas na classe executiva somente para ela. Os demais da equipe já seguiram mais cedo para a cidade destino. Ela faz check-in e uma vez dentro da aeronave escolhe a última poltrona assim ninguém ficará a sua frente conversando ou atrapalhando sua concentração nessas horas finais até chegar ao tribunal. 

Recebe um Whatsapp de seu médico informando que ela precisa retornar ao hospital o mais breve possível. Eles estão com os resultados finais. Ela ansiosamente liga para o médico. Ele explica que quer conversar com ela no consultório. Apenas menciona que a síndrome dela é rara e a medicina não sabe praticamente nada sobre tratamentos. Sabem que não é contagioso e que o quadro estabiliza sob repouso total, sem estresse e atividades que liberem endorfinas do bem-estar. Ramona explica que já está dentro de um avião e assim que voltar irá direto para o hospital.

O médico inconformado berra pelo telefone:

– RAMONA! Dei orientações claras que você deveria ficar em repouso! Chegando ao aeroporto vá para um hotel e simplesmente descanse! Nós não sabemos como essa síndrome evolui. Sua vida está em jogo!

Ela simplesmente desliga o telefone dizendo que o avião irá decolar.

Durante o voo Ramona se questiona: não teria sido melhor desde o começo que um acordo fosse feito? Ou simplesmente pagar o valor devido e ponto final? O valor não faria nem cócegas para a empresa. Não é mais simplesmente a justiça cega e imparcial que está em jogo, mas sim o orgulho corporativo. Uma empresa é uma pessoa jurídica, não tem vida própria. Quem dá vida a empresa são seus donos, sócios, parceiros, funcionários e clientes. O orgulho corporativo nada mais é do que o reflexo das pessoas que a compõem.

Ela se pergunta quando começou a trair a si mesma. Quando começou a violar os princípios que jurou defender. Se perdeu entre seus pensamentos e percebeu que na verdade havia se perdido na jornada da vida. Um sentimento de vazio tomou conta e a angústia fez lágrimas caírem. Lágrimas que se misturaram a um suor incessante como se estivesse queimando de febre. Sem forças pra sequer apertar o botão de emergência simplesmente apaga.

No Tribunal

No tribunal já estão todos aguardando o horário da audiência iniciar. A equipe de Ramona está preocupada perguntando-se porque ela ainda não chegou. Ligam, mas só dá caixa postal. Whatsapp está offline. Entram em contato com a companhia aérea que confirma o embarque de Ramona e que a aeronave já aterrissou.

 A audiência inicia. O escrivão chama pelo número do caso e anuncia:

– Audiência das 10:10 – caso José Ex-Funcionário X AMaiorEmpresaDoMundo

O juiz pergunta a defesa onde está a advogada da empresa. Um representante da equipe tenta ganhar alguns minutos ao passo que outro colega liga para a empresa aérea que confirma que todos passageiros desembarcaram exceto Ramona, mas que não a encontraram na aeronave.  Não dão maiores informações.

Sem conseguirem dar nenhuma explicação plausível ao juiz, a audiência é iniciada e por não estar presente a advogada de defesa da empresa, o caso é dado como encerrado e a causa dada como ganha para o ex-funcionário.

No Aeroporto

Imediatamentea equipe de Ramona corre para o aeroporto. Em contato com a empresa aérea ouvem o seguinte relato do responsável de vistoriar a aeronave após o pouso:

Temos um checklist de itens que são verificados. Estamos habituados a encontrar de tudo numa aeronave após um voo. É feita uma limpeza geral básica e uma mais detalhada quando algum líquido foi derramado numa poltrona ou outras manchas são encontradas. Também é feita uma limpeza pesada dos banheiros.

– Na última poltrona da classe executiva onde o bilhete de embarque registrou Ramona Goldstein foi encontrado um tablet ainda ligado ao lado de uma bolsa da marca Fendi e uma mancha gosmenta na poltrona. Manchas essas que iam até a porta de um dos banheiros da aeronave.

– O banheiro estava trancado por dentro. Batemos várias vezes, mas sem resposta. Ao entrarmos encontramos peças de roupas, sapatos e acessórios amontoados em frente ao vaso sanitário e os mesmos tipos de manchas que haviam na poltrona. A impressão foi que se havia alguém ali simplesmente desapareceu ou derreteu como se tivesse pulado para dentro do vaso.

–  Ainda mais bizarro foi a mensagem de áudio que está no celular. Entre sons e grunhidos ininteligíveis, dá pra identificar somente este trecho:

“….Prometo exercer a advocacia com dignidade… observar a ética…defender… os direitos humanos…”


– Bem, todos os itens estão em nosso escritório central sendo periciados. Após liberação serão enviados aos familiares. Fato é que nunca foi registrado algo assim nos registros da aviação, nem aqui nem em nenhum outro país.

Vida Que Segue

Semanas depois José, o ex-funcionário, enviou um cartão com flores aos familiares e suas condolências pelo desaparecimento de Ramona. A MaiorEmpresaDoMundo enviou um e-mail aos pais lamentando o ocorrido e que estão fazendo todo empenho possível para obterem uma palavra final sobre o assunto.

Novos processos começaram a inundar A MaiorEmpresaDoMundo com base em jurisprudência, a empresa contratou duas novas advogadas para o lugar deixado por Ramona. No final das contas, perder aquele caso não representou praticamente nada em termos de perdas financeiras nem significarão os próximos. Apenas o orgulho corporativo foi ferido e deixou uma pequena mancha na reputação da empresa.

Ramona deixa uma rica conta bancária, uma cachorrinha Yorkie (Luli), um duplex no melhor bairro de São Paulo, dois carros importados na garagem, um projeto para um filho que nunca teve, outros sonhos os quais jamais se realizarão e uma mancha numa poltrona de avião, aliás que já foi trocada, afinal a vida segue.

Deixou também uma grande dúvida: “Que fim levou Ramona?”

História real ou lenda urbana? A resposta está em como cada um de nós está escrevendo aquilo que é indelével no dia-a-dia de nossas vidas exceto, se também, for subitamente acometido pela Síndrome do insólito caso da advogada que derreteu. 

Autor: Alexandre Marins Augusto

LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/alexaug/ 

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